Inflação desacelera em junho, mas famílias ainda sentem pressão nos supermercados
IPCA registra 0,28% no mês, menor resultado em 18 meses. Alimentos básicos ainda acumulam alta de 6,4% no ano, e economistas alertam para riscos no segundo semestre.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,28% em junho de 2025, segundo dados divulgados nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado é o menor desde dezembro de 2023 e representa uma desaceleração significativa em relação aos 0,61% registrados em maio.
No acumulado do ano, a inflação chega a 3,12%, ainda dentro do intervalo da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, que é de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Nos últimos 12 meses, o IPCA acumula 4,87%.
IPCA — Principais grupos (junho 2025)
Alimentos ainda pressionam o orçamento
Apesar da desaceleração geral, o grupo de alimentação e bebidas continua sendo o principal vilão do orçamento das famílias brasileiras. Em junho, o grupo registrou alta de 0,54%, puxado principalmente pelo feijão (+3,2%), pela carne bovina (+1,8%) e pelo tomate (+8,4%), que sofreu com problemas climáticos nas principais regiões produtoras.
No acumulado de 2025, os alimentos básicos já subiram 6,4% — mais do que o dobro da inflação geral. Para as famílias de menor renda, que destinam uma parcela maior do orçamento à alimentação, o impacto é proporcionalmente mais severo.
"O número do IPCA é bom, mas não conta toda a história. Quem vai ao mercado toda semana sabe que os preços continuam altos. A desaceleração está concentrada em itens que as famílias mais pobres não consomem tanto", observou a economista Ana Beatriz Rocha, da Fundação Getúlio Vargas.
Combustíveis e energia aliviam
O alívio na inflação geral veio principalmente do grupo de transportes, que recuou 0,18% em junho. A queda foi impulsionada pela redução nos preços dos combustíveis, especialmente da gasolina (-0,9%) e do etanol (-1,4%), reflexo da queda no preço do petróleo no mercado internacional e do aumento na produção de cana-de-açúcar no Centro-Sul do país.
A energia elétrica residencial também contribuiu para conter a inflação, com queda de 0,3% após a revisão das bandeiras tarifárias. A bandeira verde, que indica condições favoráveis nos reservatórios das hidrelétricas, foi mantida em junho, evitando cobranças adicionais nas contas de luz.
Perspectivas para o segundo semestre
Economistas consultados pela Folha do Litoral têm visões divergentes sobre o comportamento da inflação nos próximos meses. O consenso é que o resultado de junho é positivo, mas existem riscos que podem reverter a tendência de queda.
Entre os fatores de risco, destacam-se a possível elevação das tarifas de energia no segundo semestre, caso o nível dos reservatórios piore, e a pressão cambial sobre produtos importados. A taxa de câmbio tem oscilado próxima a R$ 5,40 por dólar, patamar que encarece insumos industriais e afeta o preço de produtos como eletrodomésticos e medicamentos.
O Banco Central mantém a taxa Selic em 10,75% ao ano, patamar que a instituição considera adequado para manter a inflação na meta. A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) está prevista para o início de agosto.